05
Set 09

Percorria aquele caminho sem saber o porquê, sem saber o que tanto sentia que a tinha feito ir ali...

Aquele que outrora tinha sido o seu cantinho, o cantinho que escolhia sempre que tinha de pensar, de tomar decisões, de conjecturar soluções para as adversidades que lhe iam aparecendo, era agora um misto de tristeza e desilusão.

Lembrava-se de muitas vezes ter ali observado os arco-íris, depois de tempestades horríves seguidas de um sol que emanava um calor quase humano, que ela tanto adorava,que tanto tinham ajudado a alimentar os seus sonhos tão reais; de ali ter sonhado com uma futura casa, com o seu príncipe encantado...com a vida perfeita que tanto ansiava ter. Agora, os arco-íris iam passar despercebidos na imensidão negra que ali tinha "nascido"; as suas cores não iriam conseguir sobressaír num negro tão fundo e triste.

Não conseguia compreender como fora alguém capaz de fazer aquilo a um sítio tão mágico como aquele. Tinha sabido pelos noticiários televisivos que toda aquela área tinha sido devastada por um incêndio enorme. Nem queria acreditar... tinha que ver com os seus próprios olhos. Tinha que apalpar a terra queimada, tinha que sentir o cheiro tão frio e impessoal.


E sentia. Sentia como se aquele lugar já não fosse o mesmo.

Estava morto. O cheiro, a beleza, o ar puro...tudo era impessoal, sem sentimento, sem vida.

E foi aí que percebeu que com a morte do seu mundo mágico, aquele que a acolhera nos momentos bons e maus da sua vida, do seu reconfortante cantinho, também o seu coração se tinha despedaçado.


Porque nós somos o que vivemos. Nós dependemos do que nos pertence. E se isso nos for tirado, vão tirar um pouco de nós.


A Natureza não pertence a niguém.

É de todos.

 

 

 

[texto para a Fábrica de Histórias]


31
Mai 09

Verde. A natureza, pura e tão bela. Tão nossa. Que persistimos em esquecer, que uma coisa tão bela, é algo igualmente tão frágil. Algo que ameaçamos destruir em cada movimento egoísta no querer lutar pela riqueza.

  A esperança; num futuro melhor, numa vida melhor. O querer continuar. O não desistir. O viver.

Amarelo. A luz. Ela. O meu anjo da guarda, será a minha. Como preciso dela.. . Como preciso que me continue a mostrar o caminho certo. Tenho medo de o perder.

    A amizade. É a sua cor. A cor de um sentimento tão nobre, de algo que tão poucos têm. Que tão poucos me dão.

Rosa. A inocência de uma infância feliz. Dos sorrisos cristalinos de crianças. A forma como vêem o mundo como uma bola de sabão, transparente, mas ao mesmo tempo, com o arco-íris lá dentro. E eles alcançam-no.

      Flores. Os espinhos também existem. Mas podemos sempre arranjar forma de os cortar, ou pelo menos, usar umas luvas. São tão lindas, tão diferentes. A panóplia de cheiros que nos proporcionam é perfeita. Variada. Singela.

Branco. A paz que tanto ansiamos. A paz para que tanto lutamos. As guerras que ela gera. O querer conseguir mudar. Yes, We can.

Laranja. O conjugar de outras. Simples, é o resultado da fusão de cores tão quentes e fortes. Símbolo do calor humano que emanamos em cada abraço, em cada relação. A união faz a força.

Roxo. A cor da moda. A cor que todos usam. Ou querem usar. A robotização do mundo que estamos a criar. O igual que todos queremos ser. O diferente que tanto teimamos em desprezar. Mas é a diferença que nos torna especiais. Únicos.

     A Igreja. O seu poder absoluto que és destronado não pelos ateus, mas sim por eles próprios. Pelo absolutismo que querem impor; pelo fechar de olhos que teimam em fazer. O mundo mudou. Precisamos que ela também mude. Que evolua. Que perceba que o seu maior inimigo são as leis que ela tenta impor, os problemas que ela tenta encobrir.

Vermelho. A cor forte. A cor que domina.

O amor. O maior de todos. O sentimento que tanto ansiamos em saborear e sentir, que, muitas vezes, acabamos por perder. O egoísmo e a individualidade que se instalou na sociedade, não permitem dar valor ao outro, agir em conformidade com o que amamos. E perdemos.

O sangue. Esse elemento tão poderoso. É a família quem mais amamos. É com ela que o partilhamos. Mas não é o sangue que muda as coisas. Amamos igualmente quem tem sangue diferente. Porque o coração é quem manda.

Preto. Estigmatizado pelo luto de quem amamos. Mas quem partiu tinha a sua cor, a sua essência. Podemos despedir-nos de qualquer cor, porque o que interessa é como o fazemos, não o que vestimos. E mudar a mentalidade. Porque estamos a evoluir.

            A cor da elegância, também das aparências. Porque é disso, que no fundo, todos querem e estão a viver.

Azul. A mais simples. A mais bela.

      O céu. Esse que no cobre na redoma fantástica que é a Terra. Que nos tenta proteger contra as ameaças que nós próprias construímos. A beleza e a simplicidade do que é melhor e maior que tudo.

 

 

 A vida. Um arco-íris sem fim. Uma palete de sensações que nos proporcionam pinceladas da cor que queremos. Somos donos da nossa caixa de lápis. Apenas temos de usar o que queremos e como queremos, de forma a criar a nossa maior obra de arte, a vida.  

 

 

[texto para a Fábrica de Histórias]


23
Mai 09

Crescemos a ouvir falar deles. A querer ser como eles, a querer ter os seus poderes, para podermos ser os "mais melhores bons".

Eu não sonhei com uma. Eu tive uma mesmo ao meu lado. Sempre comigo.

Ela, a minha mãe do coração, é a heroína da minha vida. Não, os seus feitos não eram reconhecidos pelo Primeiro Ministro ou por uma Ordem qualquer; não. A sua vida simples não lhe permitia dar nas vistas ou agir por interesse de fama.

O que fez ela para ser a minha heroína? Simples, muito simples aliás. Perdoou a pessoa que mais a magoou na vida, perdoou um filho que a desprezou durante toda a vida, que a magoou a cada promessa que fazia e acabava por não cumprir, a cada encontro marcado que acabava por não comparecer ou a cada Natal em que não tinha 5minutos para lhe ligar. E ela teve uma coração do tamanho do mundo e continuou a amá-lo.

Mais? Amou-nos como seus outros filhos. Educou-nos, brincou connosco, passeou ao fim da tarde de mãos dadas com os seus meninos, puxou as orelhas quando merecíamos...foi mãe.

Ajudou quem mais precisava; dava roupa, comida, dinheiro....tudo o que pudesse fazer para ajudar quem precisava, fazia. Nem que ficasse sem as coisas para ela, mas em primeiro lugar estava um valor chamado Amizade.

Os Heróis não são aqueles que agem para se congratularem ou salvam pessoas para depois receberem medalhas. Os verdadeiros Heróis são aqueles que são felizes a ajudar, que preservam o amor e a amizade como valores únicos; que nos fazem sorrir com a sua presença; que nos fazem chorar na sua ausência.


Ela sim, é uma Heroína de verdade. Partiu, mas deixou uma marca. Uma marca que só uma verdadeira Heroína é capaz: a Saudade.

 

 

[apesar de este texto ser para Fábrica de Histórias, esta é a história da minha vida]


10
Mai 09

Não sabia que sítio era aquele. Não sabia o que se estava a passar na sua vida... nem tão pouco sabia o que era a sua vida. Não sabia quem era.

Tinham-lhe dito que se chamava Teresa, que era professora universitária de Psicologia e que havia perdido a memória aquando de um acidente de automóvel. Era tudo o que sabia dos seus 30 anos de vida.


Não se lembrava de sentir amor por algo. De amar a sua profissão ou a sua família. E se nunca tivesse amado? Nunca saberia...

Sentia-se sozinha no mundo. Ninguém compreendia o seu sentimento de impotência e ignorância  perante o que a rodeava. Todos diziam que iria passar e que, um dia, tudo não passaria de um pesadelo. Sabiam lá eles o que era aquilo.

Estava na sua suposta casa mas não reconhecia nada do que por ali se encontrava. As molduras com as fotografias eram o que lhe metia mais confusão. Via em si um sorriso enorme, quase sempre agarrada a pessoas que não fazia a mínima ideia de quem fossem, mas não sentia nada.

Decidiu então ir atá à Faculdade onde lhe tinham dito que era docente. Era um edifício muito bonito, com um jardim em toda a volta, que espelhava a Primavera que se fazia sentir.

Olhava em todas as direcções mas não via nada que lhe fosse familiar, que despertasse em si o sentimento de já ter estado ali antes. Estava com tanta gente, mas tão só.


Foi então que viu uma rapariga, sentada à sombra de uma das muitas árvores de fruto que ali se encontravam, a ler um livro que, não fazendo ideia porquê, lhe chamou a atenção. Olhou de novo. Algo naquele livro lhe era familiar. "Memórias Esquecidas" era o título.

Um aperto no seu coração fê-la recordar de onde conhecia o livro. Ela própria o escrevera, há alguns anos atrás, aquando da sua tese de doutoramento..


Lembrou-se de tudo.

Do que era, porque o era. De onde vinha...e para onde queria ir.

Sabia quem era. Estava menos só.

Perdera alguns momentos da sua vida... Mas  recordava tudo o que fazia de si a pessoa que era.


E era bom.

Sabia bem conhecer-se.




[texto para a Fábrica de Histórias!]


05
Abr 09

 

 

Diana sentia-se vazia. Perdera tudo.

O amor, os amigos, a família. O amor próprio, a auto-estima... Tinha-se perdido de si mesma. Agora que encarava o mar com a sua bravura e seriedade, sentia-se mais pequena que uma das gotas daquele pequeno oceano que vislumbrava.

Sabia que já nada fazia sentido na sua vida.

Sabia que, ao acordar, não iria encontrar nenhuma razão pela qual devesse lutar mais um dia.

Sempre fora defensora que as pessoas só deviam viver enquanto isso fizesse sentido para elas. Então porque lhe custava tanto atirar-se para um mar que não lhe pertencia mas do qual ela queria fazer parte?

Sentou-se e fechou os olhos. Inspirou e respirou aquela maresia que tanto lhe agradava.


Ela pertencia àquele mundo. Não podia despedir-se dele assim. Queria partir apenas quando fosse oportuno.

Despiu então o seu vestido, descalçou as suas sapatilhas e começou a caminhar pelo mar adentro.

Começou a nadar e não olhou para trás. Nem por uma vez.

Não queria saber o que viria. Não estava interessada no que lhe podia acontecer. Porque naquele momento sentia-se em liberdade. Estava liberta de toda a tristeza e amargura que a acompanhava de há uns meses a essa parte.

Acontecesse o que acontecesse, estava feliz.

 


[texto para a Fábrica de Histórias!]


22
Mar 09

21 de Março.... Deveria ela entrar pela porta grande, como rainha de um Carnaval atrasado mas igualmente interessante.

Contudo, antecipou-se. Sentiu vontade de dar o ar da sua graça mesmo antes de alguém se lembrar da sua vinda.

Estamos na Primavera há mais de duas semanas. O calor que já se faz sentir até já dfaz pensar no Verão, aquele que se lhe segue.

Mas ela não deixa que ele se antecipe como ela o fez. Tem-se escondido, de forma a ficarmso com medo que ela vá embora e depois volta a entrar triunfalmente fazendo todos suspirar de alívio.

Começam já a ver-se flores abertas, dando um aroma adocicado à nossa vida e a fruta desta época começa tambéma  aparecer para saborearmos melhor cada momento.


Ela, a primavera, não quis esperar para nos proporcionar um pouco de felicidade numa altura em que a crise é o dominante destra sociedade.

Agora, é a nossa vez de preservar o que ela nos trouxe...e de aproveitar ao máximo...=)

 

 

/Lara/

 

 

[texto para a Fábrica de Histórias!]

rabiscado por Lara às 11:43
um pOuco: na Primavera!
neste momento....: Sunshine*

26
Fev 09

Clara não sabia o que dizer. Nunca se sentira muito atraída pelo espírito carnavalesco, nunca lhe tinham chamado a atenção as serpentinas, os gigantones ou qualquer corso.... Talvez pelo seu medo inexplicável de palhaços...

Contudo, agora era diferente. Ricardo convidara-a para ir com ela a um Baile de Máscaras. E ela sabia que era uma oportunidade fantástica de falarem sobre o que havia acontecido entre eles na noite anterior.. Só que... Ela não fazia a mínima ideia de como se mascarar e não queria fazer figura de parva. Não sabia o que fazer.

Depois de algumas horas passadas a passear pela baixa de Lisboa, entrando em todos os recantos que fossem uma loja à procura de adereços, ela estava feliz. Tinha encontrado o disfarce perfeito.

Iria vestir-se de dama antiga: tinha comprado um vestido de época, com aqueles folhos e rendas característicos; tinha também conseguido uma sombrinha e umas luvas de renda a condizer com o vestido e um gancho perfeito e sublime para o seu cabelo tão volumoso. Talvez até ficasse bonita.


Quando chegou o dia do baile, Clara acordara numa excitação incrível. Inquieta, ansiosa, já nada a parava. Foi então que recebeu um cartão no correio que dizia

"Espera pelo teu cavalheiro em casa. Ele irá aparecer."

Sabia que era Ricardo, reconhecia a sua letra, mas o que quereria ele dizer com aquilo?

À hora marcada, a campaínha soou. Clara estava perfeita. Saiu de casa e ficou atónita. Deparou-se com uma charrete muito bem tratada, e, ao lado, Ricardo vestido como um cavalheiro perfeito para a personagem que ela era naquele dia, com um ramo de flores.


- O teu cavalheiro está aqui.

-Mas Ricardo, como soubeste qual o meu disfarce?  - Clara estava atónita.

- O destino disse-me. Ele quis que ficássemos juntos.


Um beijo apaixonado selou aquelas palavras. Estavam perfeitos. Um para o outro.

 



[texto para a Fábrica de Histórias!]


22
Fev 09

-O mar, por mais lindo e brilhante que seja, não nos traz as respostas de que precisamos nas suas ondas. Temos de as descobrir em nós próprios.

Maria não sentira que alguém se tinha sentado ao seu lado.

- Desculpe, mas não o conheço.

- Eu também não a conheço a si. Mas achei que estava demasiado crente de que o mar lhe trará as respostas que tanto procura. E ele não lhe trará mais nada que água.

- Mas o que está para aí a dizer? Quem lhe disse que estou à procura de respostas? - Maria estava cada vez mais receosa. Não conhecia aquele homem de lado algum.

- Ninguém me disse. A ansiedade que os seus olhos revelam mostraram-me isso. Mas não devia procurar as respostas de que precisa nos outros, mas sim em si própria.

- Mas quem é o senhor afinal? E porque está tão preocupado comigo?

- Miguel Santos. Mas isso é o menos relevante. Passeio por aqui há demasiados anos para saber quando alguém está a precisar de conversar.

- Obrigado, mas não precisa de se incomodar. Eu estou muito bem. Mas o mar acalma-me e traz-me a paz de que eu tanto necessito.

- Realmente, o mar não pode berrar aos nossos ouvidos quando está zangado nem chorar quando somos nós a gritar com ele... mas também não nos pode dar umas palavras de apoio quando mais precisamos... Devia procurar os seus amigos. Eles também têm o poder de nos acalmar.

- Amigos? Não sei o que isso é. Há muito tempo que deixei de os ter. Não acredito na existência da amizade verdadeira. Já acreditei, mas isso foi há muito tempo.

- Por muito que alguém a tenha magoado, a amizade é o mais nobre dos sentimentos. O mundo não existiria sem amigos. São eles que nos apoiam, que nos estendem a mão, que nos seguram qunado tropeçamos. Não deixe de acreditar nisso.

Neste momento, Maria olhava o mar ainda com mais ansiedade. Ansiedade de querer (re)acreditar  no que estava a ouvir.

- Miguel, obrigado por todas essas palavras, mas a vida não é assim tão simples. Há problemas insuperáveis, e, nesta fase da minha vida, só posso contar comigo mesma. O mar é o melhor amigo que tenho. Já agora, sou a Maria.

- Tenho pena que se sinta assim, Maria. Por maiores que sejam os problemas que tenhamos de enfrentar, há sempre uma solução; temos é de tentar encontrá-la dentro de nós, não podemos esperar que ela apareça por si só. Não pde desistir de encontrá-las. Estará a desistir de si.

- Já todos desistiram de mim. Porque não hei-de eu fazer o mesmo?

Levantou-se, pegou nas suas sandálias de couro, e caminhou por mar adentro. Afinal, estava com o seu melhor amigo.

 

 

 

[texto escrito para a Fábrica de Histórias!]


06
Dez 08

"Rica, bem-sucedida, famosa... Clara era tudo isso e muito mais. O muito mais resumia-se a uma só palavra: infeliz.

Era uma actriz cheia de trabalho, tanto no cinema como no teatro, tinha uma família pequena mas que a adorava e um namorado que dizia querer passar o resto da sua vida com ela. Tinha tudo para ser feliz, mas não o era.

Caminhando pelas ruas, como uma perfeita desconhecida, tentando não chamar a atenção dos transeuntes ansiosos por quererem saber sempre tudo, sentia-se sozinha. No meio de tanta gente, estava só.

Tinha cometido erros imperdoáveis. Tinha-se tornado numa pessoa odiosa. Tinha prejudicado tanta gente. E, até aquele momento, tinha vivido bem com isso. Sempre de sorriso na cara, como se fosse a pessoa mais afortunada do planeta.

Aos poucos, esse ego foi desaparecendo. Foi ficando vazia de cada vez que se cruzava com pessoas que tinha magoado ou de cada vez que se recordava de algumas das suas acções. Tudo em prol da fama. Mas para quê? Agora, que era famosa, não era nada.

O Filipe, desconfiava ela, era um oportunista que apenas estava interessado no seu dinheiro; mas ela não tinha forças para lhe dizer isso agora. Tinha deixado que a situação se arrasta-se até aqui e agora era tarde. Estava condenada a ser infeliz.

Naquele fim de tarde, em que o Sol estava prestes a, também ele, a abandonar, contemplou um sem abrigo. Estava sentado no banco do jardim, recentemente inaugurado, segurando num pedaço de papel. Olhava aquele pedacinho como se fosse ouro, com se tivesse descoberto um pequeno tesouro.

Clara não compreendia: o que poderia ter um pedaço de papel sujo de interessante, até mesmo para um sem-abrigo? Sem saber para quê ou porquê, os seus pés levavam-na na direcção do mendigo. Estavam incontroláveis. Era como se uma força interior muito grande a estivesse a puxar de tal maneira que nenhum esforço poderia suplantar.

Cara a cara com ele, não sabia o que dizer, como agir, o que pensar. Ele nem dera pela presença dela... continuava entretido com o seu pedacinho de papel. Clara sentia o cheiro característico da rua ali acentuado. A sujidade entranhada naquele corpo tão frágil, tão pequeno e tão marcado pela soberania do tempo fazia Clara ter vontade de chorar...

- Não costumo gostar que olhem atentamente para mim sem que digam o que querem.

Clara parou. Não estava à espera daquela voz tão grossa e rouca a invadir-lhe a mente. Não sabia o que proferir.

- Desculpe... não era minha intenção..hum..incomodá-lo.

- A mim? Não me incomoda. A minha casa é esta e sei desde sempre que tenho de a partilhar com todos. O que faz uma menina tão bem parecida como você por aqui?

- Oh...apenas saí de casa para passear e vim andando...até aqui.

- Muito bem...

-Sabe que esta rua é das mais calmas e na minha posição não gosto de andar pelas ruas mais movimentadas...

- Na sua posição? A posição quadrúpede? – Ele ria-se.

- O senhor não me conhece?

-Eu? Por que haveria eu de a conhecer? É alguma rainha?

Clara empalidecera. Pensava que todos em Lisboa a conheciam. Em todas as revistas vinha mais uma mentira sobre a sua vida. Todas as semanas recebia convites para pousar para diversas produções. Mas ele não...vivia noutro mundo.

- É assim uma pessoa tão importante a quem eu devesse fazer uma vénia?

- Não, era só uma brincadeira minha. Chamo-me Clara. E o senhor?

- José. José Castro. Mas para que quer saber o meu nome? Proavelmente nunca mais me vi...

- Como é a vida por aqui? Quem são os seus amigos? – Clara interrompera-o. Não queria esperar por mais uma resposta irónica.

- Amigos? Não tenho amigos. Há muitos anos que eles foram embora... Não devem ter gostado da minha nova residência.

- O que é esse papel para o qual tanto olha mas que nada tem escrito?

- Este papel, menina Clara, é o papel da escritura da minha casa, a casa que comprei há dez anos atrás. O tempo não perdoa e ele foi perdendo a cor..mas o significado permanece.

- Então o José tem casa? Porque não vive lá? Porque continua na rua?

- Não fazia sentido viver numa casa vazia. Comprei-a para a dar como prenda de anos à minha mulher. Mas o destino não gostou e levou-ma antes mesmo de lha dar. Por isso não a quero. A rua é mais cheia, mais viva.

- O José não precisa de nada? Eu posso dar-lhe dinheiro, um emprego... eu posso fazer tudo para que o José volte para uma vida normal.

- Dinheiro? Acha mesmo que isso pode dar felicidade a alguém? Pensei que era diferente.

- Não José. E eu sou a maior prova disso. Fiz coisas horríveis a pessoas que não mereciam , só pela loucura de me tornar famosa. Agora sou-o. Mas sinto-me sozinha, mesmo com tanta gente a rodear-me.

- Parece-me então que não sou eu que estou a precisar de ajuda menina...

- Gostava de fazer alguma coisa por si, talvez me fizesse sentir melhor e redimida.

- Não sou o remédio de ninguém. Sou uma causa perdida.

 

 

Naquele momento, Clara percebeu que José não precisava de dinheiro ou de um emprego. Que não era isso que ia fazer com que ele “mudasse de casa”. José precisava de uma abraço amigo. Há tantos anos que não devia sentir a pele de alguém, que não devia sentir o carinho inerente à amizade.

 

E deu-lhe um. Deu-lhe um abraço tão forte que ela própria se sentiu comovida.

José não disse nada. Apenas se levantou e começou a caminhar. Clara seguiu aquele ser tão frágil até a um prédio bastante bonito, provavelmente remodelado há pouco tempo. Ali, José disse-lhe um tímido obrigado e subiu as escadas.

Clara sorriu. Sentiu-se livre. Sentiu-se feliz. Tinha conseguido mudar o mundo de uma pessoa. Sentia-se, finalmente, realizada

Pouco a pouco,  mudando o mundo de uma pessoa , podemos mudar o mundo de todos. Porque existe uma Clara dentro de cada um de nós."

 

Texto ficcionada escrito para a fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

 

/Lara/

 


26
Nov 08

 

Toda uma vida... Toda ela pode ser simplificada num simples caminho. Um caminho cheio de ilusões, tristezas, felicidade, mentiras, sonhos...

Um caminho que pode ser relembrado, um caminho que deve ser vivido.

Que interessa vivê-lo apressadamente com a esperança de alcançarmos rapidamente uma estabilidade que nos permita ser felizes se, ao olharmos por entre as folhas que vão caindo à medida que ultrapassamos mais um obstáculo, que alcançamos um objectivo, que concretizamos um sonho, descobrimos que não ficou nada a não ser as folhas? Porque o caminho é muito mais que isso. Não se resume a que as folhas caiam; importa a forma como isso acontece e o quanto soubemos aproveitar cada segundo da descida.

Os companheiros de viagem? Muitos e cada vez mais. Cada um, à sua maneira, é importante. Até mesmo aqueles que nos fazem derramar uma lágrima, são importantes. Porque são eles que vão ajudar-nos a andar com mais precaução, a ter mais cuidado com as possíveis pedras que possam aparecer. Os outros, aqueles que nos ajudam a sorrir, são isso mesmo, companheiros de um caminho, de uma vida! São aqueles que relembraremos na hora de ver as folhas; cada um terá uma coloração de folha especial... Porque cada um é único...

Não vou querer saber qual será a próxima curva ou se haverá um corte na estrada; não vou querer saber se vai haver um sentido proibido ou uma rua sem saída. Porque não interessa. Apenas interessa a forma como caminho agora, neste presente tão meu, em que tento saltar cada charco de água sem me molhar e atravessar cada ponte com cuidado para não cair.

Não me vou sentir enjoada. Porque as curvas vão ser feitas à minha velocidade, da forma como eu quiser. Mas sempre a olhar em frente, sem ter medo do que virá e sem qualquer arrependimento do que possa ter feito. Se o fiz, foi o melhor na altura.

E se de repente chover? Não importa... as folhas já estão caídas; só importa o que cada uma delas representa. Só importa o que cada uma delas é.

Se queria que o Sol brilhasse ao longo de todo o meu percurso? Não... Definitivamente, não. A perfeição não existe. E a chuva iria obrigar-me a fazer uma pausa, para não me molhar. De vez em quando, é preciso saber quando parar. Faz bem à alma!...

Os caminhos que se entrecruzam com o nosso? São difíceis... Porque podem trazer uma nova curva para nós ou podem fechar-nos definitivamente uma pequena estrada. Contudo, “Todos os caminhos vão dar a Roma”, por isso, se não for aquele, haverá outro que nos permitirá lá chegar, onde quer que seja.

Talvez não seja boa ideia procurar o lugar da felicidade completa. Perderemos tanto tempo, podemos perder-nos, podemos fugir daquele que era o nosso objectivo e depois...não o vamos encontrar. Porque, simplesmente, não existe.

Quando caminho, não quero olhar para trás. Quero encarar as possíveis tempestades que possam aparecer, saborear a panóplia de sentimentos e ser feliz...uma felicidade construída por mim... não perfeita, mas minha.

 

 

 

Textinho feito para fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

 

/Lara/ 

 


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